Meu amigo espírita idiota

Tenho um amigo que é que espírita e também idiota. Acalmem-se, não tenho preconceito com os espíritas, nem com meu amigo.  Em primeiro lugar, acho muito legal quem acha um jeito de se sentir confortável com a morte, embora isso signifique abrir mão de um pouco de racionalidade. Sem dúvida, é uma troca que vale a pena, principalmente quando isso resulta em práticas de ajuda ao próximo, como é o caso de muitas religiões. Assim, não acho que ele seja um idiota por ser espírita, mas, como ficará mais claro adiante, é importante mencionar sua crença religiosa.

Quem nunca parou pra pensar qual o sentido de se fazer um seguro de carro, de casa ou contratar um plano de saúde? Como dói olhar para trás e raciocinar: “eu podia ter passado esse ano sem seguro, pois nada demais aconteceu com meu carro”. Será que esse gasto faz sentido?  Meu amigo espírita acha que não, pois não possui plano de saúde, seguro de carro e de casa. Além disso, ri de nós, pobres mortais, que gastam dinheiro com esse tipo de coisa.

Dentre os seguros mencionados, discutirei o plano de saúde em mais detalhes, pois considero o mais importante.

Pagar um plano de saúde é obrigatório para qualquer um que tenha condições financeiras para tanto. As mensalidades do plano não representam nada, quando comparadas com as incertezas que protegem. Com uma média de R$ 150 por mês (R$ 1.800 por ano) é possível adquirir um plano de saúde com boa cobertura. Em uma economia, onde a taxa de juros é 8,5%, como a nossa, com R$ 21.176 você conseguirá bancar seu plano de saúde por toda a sua vida. No entanto, não é conservador assumir que as taxas vão continuar altas assim pelo resto de nossas vidas. Além disso, há imposto de renda. Considero razoável, então, assumir 5% como taxa de juros. Assim, R$ 36 mil seriam necessários para bancar uma vida de mensalidades. Não entrarei em detalhes da matemática, mas é interessante notar que essa quantia será suficiente para pagar seu plano de saúde, independente do número de anos que irá viver – se você viver eternamente, a quantia ainda será suficiente.

R$ 36.000, eis o número que você vai jogar no lixo, caso viva uma vida sem quaisquer tropeços de saúde. No entanto, acho plausível estimar um valor presente para todos aqueles gastos que todos certamente teremos, no decorrer de uma vida. Suponho que R$ 6.000  seja um bom chute e facilita nossas contas. O número não parece absurdo, já que um simples exame de imagem custa em torno de R$ 1.000. Dessa maneira, R$ 30 mil (R$ 36 mil – R$ 6 mil) passam a ser a quantia que temos de ter em mente. Portanto, para ter uma vida financeira tranqüila perante os percalços de sua saúde, é preciso investir R$ 30.000. Este dinheiro, todavia, pode ir para o lixo, caso você viva uma vida muito próxima da saúde plena.

A questão é: vale a pena eu investir R$ 30.000 para cobrir eventos que não consigo julgar se vão acontecer? Esse é o valor médio de um carro, apenas! Antes de entrarmos em mais algumas contas, nessa altura do campeonato, as coisas já ficam mais claras, não? Pagar, ou não, R$ 30.000 para evitar a completa desgraça financeira? Sua saúde, ou melhor, a sua vida vale R$ 30.000? Meu amigo espírita acha que não e, por conseqüência, é um idiota – ao menos no que diz respeito a essa parte de sua personalidade. Mas por que ele não é apenas um idiota, mas um espírita idiota?

Ele é um idiota, pois é uma pessoa inteligente e tem noção de todos esses raciocínios, mas insiste em não fazer um plano de saúde. É um idiota por considerar que sua vida e saúde não valham R$ 30.000. A questão é que, após um tempo de discussão com ele, ele abre o jogo: “tudo bem, eu não acho que algo de mau vá acontecer comigo, já que eu acredito que seguir os preceitos espíritas à risca, assim como eu faço, impede que eu esteja exposto a tais riscos”. Hum… Como já disse, acho legal pessoas que encontram um jeito de lidar com a morte. Muitas, como meu amigo, encontram o conforto em religiões. Ele, após demonstrar tanta fé, aparentemente, deixou-me sem argumentos para convencê-lo. No entanto, pensem que qualquer demonstração de fé religiosa vem intimamente ligada a uma expectativa de retorno positivo, seja a vida eterna, paz na terra, uma melhor reencarnação, a promessa de um paraíso cheio de virgens e etc. Qual o retorno espiritual de não se fazer um plano de saúde?

Meu amigo misturou um pouco as coisas para justificar seu pão-durismo sem tamanho. Ele pode e, se isso lhe traz com conforto, deve ser um espírita comprometido e esperar atingir todos os retornos oriundos da sua fé. Agora, qual o preceito espírita que diz: “jamais farás um plano de saúde, pois isso será uma demonstração de fraqueza; exponha-se a riscos desnecessários para economizar quantias pouco significativas a você”. Caso ele demonstre que, sim, isso é um preceito espírita, eu calo a minha boca e o idiota sou eu.

Qual o retorno espiritual em esperar que nada de mal aconteça a você? Acho que nenhum. Se mesmo assim, ele ainda pensar que está protegido, por ser um espírita comprometido, eu peço, pelo amor de deus, que ele faça um plano de saúde, já que ele é humano e comete erros. Ele consegue seguir todos os preceitos a todo momento? Hum… Acho que ele deve cometer alguns deslizes, mesmo que seja sem querer. Então, faça a porra do plano de saúde!

Voltemos à matemática. Talvez, se fizermos mais algumas contas, haverá uma chance de meu amigo idiota estar certo, se pensarmos apenas no aspecto financeiro. No post sobre a mega-sena, explicitei como calcular um retorno esperado diante de vários cenários. A fórmula é simples: multiplique a probabilidade de cada evento pelo retorno esperado e, depois, some todos esses produtos. Vamos assumir que 97% (um pouco alto) seja a chance de você não ter graves problemas de saúde ou acidentes. Como já dito, neste caso, seu retorno financeiro será R$30 mil, caso você escolha não fazer um plano de saúde, como meu amigo.  Agora, há uma chance de 3% de algo realmente sério acontecer: câncer, acidentes de carro, algumas noites na UTI (um dia chega a custar mais de R$ 10 mil) e etc. Como estimar o prejuízo, caso algo desse tipo ocorra com você? É difícil, mas tenho certeza que eles te levaram à falência! Qual o preço dessa falência? R$ 400 mil, R$ 500 mil, R$ 1 milhão? Não ter dinheiro para se tratar: isso tem algum preço? É difícil de estimar. Para simplificar, vamos usar R$ 500 mil como base. Dessa maneira temos:

Retorno esperado = -500 mil x 3% + 30 mil * 97% = -15 mil + 29,1 mil = R$ 14,1 mil

Ah há! Então, no final das contas, meu amigo está certo. Ele tem um retorno esperado de R$ 14,1 mil com a sua brincadeira. As contas são simples, mas acredito que a mensagem seja clara: há um pequeno retorno financeiro ao abrir mão de um plano de saúde. Na verdade, é mais razoável trabalhar com esse novo número, ao invés dos R$ 30 mil iniciais. Ou seja, apostar sua vida, sua saúde e a completa desgraça financeira vale R$ 14,1 mil – menos que um carro popular. Para aqueles cegos pela “racionalidade” matemática e que não conseguem enxergar o absurdo de avaliar sua saúde a R$ 14,1 mil, tal aposta parece inteligente. Existe uma pegadinha, entretanto! A probabilidade é a ferramenta matemática que nos ajuda a lidar com incertezas. O problema é que esses cálculos de retornos esperados, apesar de auxiliarem a decisão, têm pouco efeito prático quando o evento não se repete várias vezes. Assim, com as probabilidades e retornos medidas, um cassino, por exemplo, pode estimar com relativa precisão seu retorno esperado, já que os eventos (apostas) vão se repetir muitas e muitas vezes. O mesmo vale para quem joga na mega-sena toda semana e etc. O ponto é: você só vai viver uma única vez! O evento não se repete. Achei a explicação para a atitude do meu amigo, então. Talvez ele não seja tão idiota. Ele pensou: “eu sou espírita, vou viver várias vidas, essa conta faz sentido para mim”. De fato, se você vai viver mais de uma vez, não tenho argumentos e peço desculpas. Nesse caso, não vale a pena fazer plano de saúde mesmo.

PS: vale reforçar mais uma vez que não tenho nada contra o espiritismo, espíritos e espíritas!

PS2: se meu amigo se sentir convencido a fazer um plano de saúde, soltaremos fogos  e pagarei um almoço para ele.

  1. A próxima campanha publicitária da Unimed vai pregar o ateísmo.
    Muito bom!
    Abraço.

  2. seria ótimo para o nosso caro amigo espírita se, ainda que usasse ESSE argumento para justificar a mesquinharia, ele PUDESSE levar os ganhos dessa vida para a próxima; acho que só assim toda essa matemática poderia fazer sentido. mas creio que nem o espiritismo contemple essa opção de transferência financeira.

    • Coach
    • 8 março, 2010

    Muito legal esse post.
    Ainda tem q levar em conta a tranquilidade e a seguranca que a pessoa vai sentir se souber que tem um plano de saude pra cobrir os gastos caso aconteca algo inesperado.
    Abs
    Marco

      • Ninja Jiraya
      • 8 março, 2010

      Além disso, é importante entender a atitude de uma pessoa que não tem plano de saúde. Ela, provavelmente, vai evitar fazer uma série de exames e consultas, por considerar irrelevantes. Isso, sem dúvida, pode comprometer a saúde.

    • Gabroka
    • 17 março, 2010

    Vc diz em 3% de algo grave acontecer… nao sei de onde vc tirou esse valor, mas tudo bem, a questao é que deve ser levado em conta a probabilidade DE CADA DOENÇA, baseado em estudos cientificos que calculam sua incidencia em cada faixa etaria do idiota (paciente em questao)

    EX: A incidencia de apencite aguda em adultos jovens (20-30anos) é de 8,7%. o tratamento é exclusivamente cirurgico e com gastos rasoáveis. (Via aberta ou convencional: R$ 3500,00 OU via videolaparoscópica – “por lêiser” – R$ 5000,00) E vale a pena lembrar que Apendicite aguda(K35) é só UMA doença descrita no CID-10 (Codigo internacional de doenças – 10ª edição – http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/cid10.htm ) .
    Excluindo as doenças ginecológicas, que nao se aplicam ao idiota em questao, ainda resta milhares de doenças para serem calculadas as taxas de incidencia e os gastos relacionadas ao tratamento.

    Assim sendo, ele é um idiota! Ou, ele leu a cartilha do SUS e acreditou que a saude pública do Brasil é confiável e de rapida resolução. Oooou, ele vai me ligar se ele tiver: apendicite, febre no nilo ocidental, hantavirose, cólera, diverticulite, corpo estranho em orifícios naturais, escorbuto, febre tifoide, dor de garganta, pití,etc. (o resto tá no CID !!!)

    Ps: sou espirita e tenho plano de saúde!!!

      • Ninja Jiraya
      • 17 março, 2010

      Caro amigo espírita que não é pão-duro, que bom que você tem um plano.

      Sim, você está mais do que correto: a probabilidade deve ser baseada em estudos científicos. No entanto, isso demandaria uma enorme quantidade de tempo e recursos. Meu intuito não é fazer uma tese de mestrado. Assim, peguei um número que considerei baixo, como 3%, que é conservador para o raciocínio em questão. Lembre-se que é preciso considerar muito mais do que apenas doenças, há risco de acidentes, seja de automóvel, quedas, assaltos e por aí vai.

      No entanto, tenho uma resposta que resolve toda essa questão. Se, estatisticamente, não valesse a pena fazer plano de saúde (ao menos no aspecto financeiro) e você considerasse todas as probabilidades que você mesmo disse, as segurados de saúde deveriam ganhar dinheiro com a sua mensalidade, correto? Ou seja, a questão é saber se ganham mais com mensalidade do que gastam pagando os usuários. Garanto que a maioria perde dinheiro nesse aspecto. Elas ganham dinheiro de outro jeito, mas isso é outro assunto.

    • André
    • 25 agosto, 2010

    Espírita é tudo idiota… acreditam em fantasmas… bando de imbecis… buuuuuuuu

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