O Futuro do Jiraya
Este post é apenas um registro de alguns raciocínios que tenho a respeito do mercado financeiro no momento, para que, no futuro, eu possa entender onde estive certo e errado. Pode ser um pouco chato, para aqueles que não trabalham com isso.
Há um mês e uns quebrados atrás, no dia 15 de setembro, escrevi um post relatando o que eu achava dos preços da Bolsa de Valores de São Paulo: iriam cair. Naquela data, o índice Bovespa estava cotado a exatos 59.263 pontos. Embora um mês não seja absolutamente nada, para qualquer espécie de decisão tomada em relação à Bolsa de Valores, o mercado fez, para aqueles que, como eu, a partir daquele momento passaram a acreditar em queda, cada dia parecer uma eternidade. Hoje, estamos em 65.485, apesar de o índice já ter negociado acima de 67.000 no último mês: um movimento de alta pra ninguém botar defeito.
No post do mês passado, tentei explicar como, geralmente, as pessoas se comportam em pontos de inversão de tendência de preços. Desde então, o padrão de comportamento segue o mesmo. No entanto, há outros raciocínios que suportam aquela previsão.
Primeiro, gostaria de explorar um pouco mais o que tem sido senso comum, nos últimos meses de alta, a saber:
- A economia mundial e, principalmente, a americana estão melhorando e já atingimos o fundo do posso.
- O dólar vai continuar caindo.
Esses dois pontos, para os quais eu digo “foda-se”, têm dominado as manchetes e a mente da maioria dos investidores. Pessoas escolhem o que lembrar e no que prestar atenção, devido a vieses de cognição, já explicitados em outro post. É impressionante como 99% daqueles que escolhem se envolver com o mercado financeiro ajustam seus argumentos de acordo com o movimento de preços. Assim, fazem dinheiro 80% do tempo e nunca são capazes de ganhar dinheiro nos outros 20%: os pontos de inversão, que, geralmente, tendem a acabar com grande parte dos ganhos acumulados anteriormente.
A melhora da economia global e americana tem sido suportada, no último mês de alta das ações, por resultados de empresas, que, na grande maioria, surpreenderam o mercado com lucros acima do esperado. Pelo menos é o que dizem por aí. Será que isso é sustentável? O que vem pela frente? Os participantes de mercado, como sempre, projetam o próximo passo para cima. No entanto, se eu, que não entendo bulhufas de economia, consigo enxergar uma série de fatores que sustentam o oposto, o mercado deve estar muito cego aos dados: que novidade!
Grande parte dos resultados reportados acima do esperado foi conseqüência de corte de custos: leia-se demissões. É senso-comum e verdadeiro que o mercado de trabalho e o consumo americano não andam muito bem das pernas. Se o consumo representa quase 70% do PIB americano e as pessoas não conseguem emprego, como vão gastar? Se não gastarem, como já vem não fazendo, de onde vão sair os resultados das empresas? Do cu? Vão cortar mais custos? De onde?
Além disso, é importante entender que estamos em processo de desalavancagem pós bolha de crédito. A história ensina que, em todas as ocasiões semelhantes, o processo durou anos. Não estou me referindo à desalavancagem do mercado financeiro, que geralmente ocorre de maneira rápida e abrupta, mas à desalavancagem dos indivíduos. Milhares de famílias tiveram o patrimônio completamente estraçalhado pela crise imobiliária. Além disso, é sabido que, nos últimos anos, o crédito foi responsável por uma fatia generosa do consumo americano. Como pode o mercado financeiro se sustentar próximo a máxima dos últimos anos sendo que o desemprego é crescente, empresas estão demitindo, não há crédito e, se houvesse, os consumidores não estão dispostos a acessá-lo? Repito, serão anos até que as coisas voltem aos níveis dos últimos anos.
A imprensa e muitos analistas tem colocado muitos bons argumentos, comparando essa recessão com outras do passado. Fazem estatísticas de duração e como o mercado de ações se comportou a época. No entanto, acredito que esta recessão só pode ser comparada a outras que se deram devido ao estouro de uma bolha de crédito, como a grande depressão de 1929 e a bolha do mercado acionário e imobiliário japonês do final da década de 80, por exemplo. Em ambas ocasiões, o processo demorou anos para reverter. No Japão, de fato, a recuperação não aconteceu até hoje.
O mais interessante é saber que, após 1929, o mercado acionário americano teve um movimento de alta da mesma magnitude daquele que pode ser observado na tela agora, para depois falir. Além disso, o gráfico abaixo demonstra como a alta que ocorreu a partir dos lows do crash foi acompanhada por aumento no lucro das empresas:
Fonte: http://www.gold-eagle.com/editorials_05/lundeen110807.html
Meu grande amigo Milton Friedman, pai dos monetaristas, prêmio Nobel de Economia, argumentava que a depressão de 1929 foi, em grande parte, causada pelo Federal Reserve, que não injetou liquidez no mercado. Assim, muitos consumidores e empresários ficaram sem acesso a crédito. Hoje, como sabido, nosso caro amigo Ben Bernake seguiu as recomendações do grande Friedman e inundou o mercado com dólares. Estamos salvos! Acho que não. Repito, não entendo nada de economia e, hoje, em um relatório do Banco Central Americano, estava claro e com letras garrafais: o crédito, além da má qualidade, ainda não cresce. Sei que para mim e para qualquer ser humano que atue no mercado financeiro, hoje, ficou mais do que óbvio que todos aqueles dólares não estão fluindo para a economia real: estão inflando os mercados financeiros globais. Os bancos que têm mostrado lucros acima das expectativas, como Morgan Stanley, JP Morgan e Goldman Sachs, atingiram tais resultados assumindo riscos em trading. Assim como há pouco tempo atrás estes bancos estavam assumindo riscos com a pressuposição de que os preços do mercado imobiliário só subiriam e continuariam com a volatilidade baixa, dessa vez, estão fazendo a mesma coisa: estão assumindo que o dólar só continuará caindo. Por outro lado, os bancos que emprestam para o consumidor, como Bank of America e Citigroup, ainda estão patinando e reportaram resultados desanimadores.
Entramos, então, no segundo ponto: o dólar americano vai continuar caindo. Mercados eficientes uma ova! Hoje, ao comprar um ativo, você está tomando uma única decisão: ou você está vendendo ou comprando dólares. Com exceção do Yuan, todo e qualquer outro ativo do planeta terra, nos últimos meses, movimenta-se com precisão tick a tick na direção contrária ao dólar. Safra da Soja? Demanda por petróleo? Valor das empresas? Empresas de varejo? Who cares?! Se você quer fazer parte dessa festa, esqueça de tudo isso, pois estará jogando apenas com o dólar.
Se toda aquela tonelada de dólares não está fluindo para a economia real e para o consumidor, o mercado financeiro, em grande parte representado por bancos como os citados, está vendendo estes dólares para comprar todo e qualquer outro ativo, usando os argumentos não muito sólidos já mencionados. Assim, esta última pernada insana de alta dos ativos é simplesmente financiada por dólares. O que acontece com o dólar se a economia desapontar, como acredito que vai ocorrer por muito e muito tempo? Em um primeiro momento, não tenho dúvidas: irá valorizar. Acho que a magnitude do movimento é algo próximo a paridade poder de compra das moedas, como pode ser observado pelo Big Mac Índex da Revista Economist, que indica uma cotação de R$ 2,25 para o dólar contra o real:
| Country | Big Mac Price | Implied PPP rate + | Today’s Exchange Rate 1 USD = |
Over(+) / Under(-) Valuation against the USD, % ++ | |
| in Local Currency | in US dollars | ||||
| United States | $ 3.57 | 3.57 | — | 1 | — |
| Argentina | Peso 11.5 | 3.0091 | 3.22 | 3.8217 | -15.7443 |
| Australia | A$ 4.34 | 4.02 | 1.22 | 1.0796 | 13.0048 |
| Brazil | Real 8.03 | 4.6141 | 2.25 | 1.7403 | 29.2881 |
| Britain | £ 2.29 | 3.7553 | 0.64 | 0.6098 | 4.9524 |
| Canada | C$ 3.89 | 3.7556 | 1.09 | 1.0358 | 5.2327 |
| Chile | Peso 1750 | 3.1493 | 490 | 555.681 | -11.8199 |
| China | Yuan 12.5 | 1.8285 | 3.50 | 6.8361 | -48.8012 |
| Colombia | Peso 7000 | 3.7283 | 1961 | 1877.54 | 4.4452 |
| Costa Rica | Colones 2000 | 3.4659 | 560 | 577.05 | -2.9547 |
| Czech Republic | Koruna 67.92 | 3.9354 | 19.0 | 17.2587 | 10.0894 |
| Denmark | DK 29.5 | 5.9242 | 8.26 | 4.9796 | 65.8768 |
| Estonia | Kroon 32 | 3.0557 | 8.96 | 10.4722 | -14.4401 |
| Eygpt | Pound 13 | 2.364 | 3.64 | 5.4991 | -33.8074 |
| Euro area | € 3.31 | 4.9506 | 0.93 | 0.6686 | 39.0966 |
| Hong Kong | HK$ 13.3 | 1.7161 | 3.73 | 7.7502 | -51.8722 |
| Hungary | Forint 720 | 4.0615 | 202 | 177.276 | 13.9466 |
| Iceland | Kronur 640 | 5.1247 | 179 | 124.885 | 43.3319 |
| Indonesia | Rupiah 20900 | 2.2259 | 5854 | 9389.67 | -37.6549 |
| Israel | Shekel 15 | 4.0498 | 4.20 | 3.7039 | 13.394 |
| Japan | ¥ 320 | 3.5355 | 89.6 | 90.5102 | -1.0056 |
| Latvia | Lats 1.55 | 3.2604 | 0.43 | 0.4754 | -9.5499 |
| Lithuania | Litas 7.1 | 3.0732 | 1.99 | 2.3103 | -13.864 |
| Malaysia | Ringgit 6.77 | 2.0112 | 1.90 | 3.3662 | -43.5565 |
| Mexico | Peso 33 | 2.5472 | 9.24 | 12.9552 | -28.6773 |
| New Zealand | NZ$ 4.9 | 3.6864 | 1.37 | 1.3292 | 3.0695 |
| Norway | Kroner 40 | 7.1739 | 11.2 | 5.5758 | 100.868 |
| Pakistan | Rupee 190 | 2.2795 | 53.2 | 83.3502 | -36.1729 |
| Peru | New Sol 8.056 | 2.8083 | 2.26 | 2.8686 | -21.2159 |
| Philippines | Peso 99.39 | 2.1247 | 27.8 | 46.7792 | -40.5719 |
| Poland | Zloty 7.6 | 2.7246 | 2.13 | 2.7894 | -23.6395 |
| Russia | Rouble 67 | 2.2941 | 18.8 | 29.2051 | -35.6277 |
| Saudi Arabia | Riyal 11 | 2.9328 | 3.08 | 3.7507 | -17.882 |
| Singapore | S$ 4.22 | 3.0323 | 1.18 | 1.3917 | -15.2116 |
| South Africa | Rand 17.95 | 2.444 | 5.03 | 7.3444 | -31.5124 |
| South Korea | Won 3400 | 2.9033 | 952 | 1171.1 | -18.7089 |
| Sri Lanka | Rupee 210 | 1.8271 | 58.8 | 114.939 | -48.8424 |
| Sweden | SKr 39 | 5.6143 | 10.9 | 6.9465 | 56.9136 |
| Switzerland | SFr 6.5 | 6.4261 | 1.82 | 1.0115 | 79.9308 |
| Taiwan | NT$ 75 | 2.3238 | 21.0 | 32.275 | -34.9342 |
| Thailand | Baht 64.49 | 1.9282 | 18.1 | 33.4458 | -45.8826 |
| Turkey | Lire 5.65 | 3.8728 | 1.58 | 1.4589 | 8.3008 |
| UAE | Dirhams 10 | 2.7218 | 2.80 | 3.674 | -23.7888 |
| Ukraine | Hryvnia 14 | 1.68 | 3.92 | 8.3335 | -52.9609 |
| Uruguay | Peso 61 | 2.9326 | 17.1 | 20.801 | -17.7924 |
Fonte: http://www.oanda.com/products/bigmac/bigmac.shtml
Não sei até quando esses dólares serão capazes de inflar os ativos, deixando todos desesperados. A cada dia ouço pessoas com argumentos como: os gringos estão malucos, estão comprando tudo; contra fluxo não há argumento; há muita liquidez; há muita demanda pelos ativos brasileiros, pois temos uma economia robusta. Ou seja, a desculpa para comprar passa a ser: os outros vão comprar, então eu vou comprar antes deles! Belo argumento! E você precisa fazer faculdade e vestir um terno para falar isso no Bloomberg Channel. Pense, ainda, que em março, todo mundo sabia que os ativos estavam baratos, mas ninguém tinha colhões para comprar. Era preciso um movimento de preços, para que as pessoas ganhassem mais confiança. Hoje, o oposto é verdadeiro. Fora o argumento do “fluxo” e “liquidez”, todos sabem que os ativos estão caros, mas morrem de medo de tomar alguma atitude.
Pra quem tem estômago para lutar contra este movimento insustentável, acredito que o banquete vai ser saboroso e rápido. Saiba que, na primeira pernada de baixa dos ativos contra o dólar, muita gente vai comprar… O caminho para baixo é maior do que qualquer um pode imaginar, na minha opinião. O mercado financeiro está alvancando em pressuposições muito frágeis, subestimando a importância do consumidor americano para o mundo e repetindo o comportamento de outras bolhas de crédito.
Como os japoneses não falam com ninguém e duvido que tenha algum investidor que viveu cada dia da grande depressão de 1929 a 1933 vivo, não existe ninguém para nos contar a história direito.
E pra encerrar, embora me sinta menos confortável com essa previsão, faço um chute: não se preocupe com inflação e com as commodities, você vai ficar com saudade delas!
PS: este post representa a minha opinião e não é uma recomendação de compra ou venda de qualquer ativo.

Gostei do post, com argumentos mais convincentes que os anteriores. Mas uma coisa que eu acho complicado é essa coisa que todos fazem de comparar a atual crise com a de 29. Concordo que elas têm vários elementos em comum, mas usar apenas um evento na história como parâmetro não é algo realmente confiável (ainda mais porque teoricamente as pessoas aprenderam com os erros de 70 anos atrás e porque a difusão de informações é muito diferente da época, alterando toda a dinâmica dos mercados).
De qualquer modo, torço pra vc estar certo, porque apesar de eu não ter tido nervos pra aguentar essa subida forte, quero poder comprar umas ações mais pra baixo.