Cognitive Biases – O Mercado Financeiro para Dummies. Parte 3
“Investing is not a game where the Guy with a 160 IQ beats the guy with 130 IQ”. Essa é uma frase muito usada pelo grande investidor Warren Buffet. Se pararmos para pensar, não é tão simples entender o real significado dessas palavras. Tudo fica mais complicado, quando lembrados daquelas figuras de terno, pessoas importantes do mercado financeiro ou daquele primo do seu amigo que diz ser inteligente e faz muito dinheiro com a Bolsa de Valores.
O que acontece no mercado financeiro, que chama a atenção de poucas pessoas, é o fato de a inteligência levar alguém a fazer coisas idiotas, com muita freqüência. Quanto mais inteligente, maior a probabilidade de se fazer um burrice! Esse é o ponto chave da citação de Buffet. Na verdade, acredito que a inteligência pode te levar um desempenho muito inferior à média e, muitas vezes, à completa destruição de seu patrimônio. Por que isso acontece? Quando um cara com 160 de QI vai ganhar de um cara com 130 QI no mercado financeiro?
Se você é uma pessoa inteligente, entretanto, não se preocupe, pois há esperanças para se ganhar dinheiro. De tudo que já li a respeito do mercado, apenas um livro explorou esse aspecto tão importante, que estou tentando explorar: os erros de cognição de nossos cérebros. Eles existem, são comuns e nos fazem tomar decisões absurdas. O perigo em ser inteligente e não ter conhecimento desses erros de raciocínio faz com que aqueles com maior QI encontrem, com maior facilidade, uma justificativa para sua ação imbecil. Deixe-me explicitar alguns exemplos.
a) Relative Value Bias
Imagine que você deva fazer uma viagem para a França. Você olha alguns anúncios de agências de turismo e descobre que o pacote mais barato sair por US$ 2000, em uma determinada agência. No dia seguinte, você recebe um comunicado da mesma agência, dizendo que o preço do pacote caiu para US$ 1600. A grande maioria das pessoas adquire esse pacote.
Suponha, agora, um cenário diferente. Você ainda deve fazer uma viagem para a França, pesquisa preços e descobre que o pacote mais barato custa US$ 2000. No dia seguinte, você recebe um comunicado que os preços caíram absurdamente, para US$ 700. No entanto, devido a alguns problemas em sua vida, você não consegue fechar o pacote naquele dia. No dia seguinte, você se dirige à agência: o preço do pacote agora é US$ 1300. A grande maioria das pessoas não fecha negócio! Você não paga US$ 1300 por algo que estava custando US$ 700 ontem, embora você ache US$ 1600 um valor muito justo!
Isso é um erro que se comete muito no mercado financeiro, talvez mais do que em qualquer outro lugar do mundo, pois, a cada segundo, há uma referência nova de preço. O que geralmente ocorre: alguém, por boas razões, com grande margem de segurança para erros, estima que comprar a ação da empresa X por R$ 30 é um excelente negócio; em um primeiro cenário, essa ação cai de R$ 40 para R$ 30 e a pessoa adquire a ação; em um segundo cenário, a ação cai rapidamente de R$ 35 para R$ 10 e, em seguida, volta a negociar a R$ 25; a maioria dos gestores e investidores, nessa situação, não compra as ações!
O grande perigo para as pessoas inteligentes é que essas vão achar explicações para não comprarem a R$ 25, a exemplificar: a ação já subiu demais e, geralmente, tende a cair; o resultado do próximo trimestre vai ser ruim, pelos motivos a, b e c; o Banco Central americano subiu os juros semana passada; o petróleo está muito caro; tudo indica que a recessão atual vá perdurar por mais tempo. Vocês não sabem o quão complicados e convincentes esses discursos podem parecer! Eu devo fazer um para mim mesmo a cada semana. Acredite, vão achamos todo o tipo de desculpa para justificar um ato sem sentido. Repito, os mais inteligentes são melhores nesse quesito.
Outro erro comum é quando o mercado inteiro está subindo e uma ação X não acompanha o movimento. De repente, ela parece um bom negócio a R$ 30, por exemplo. No dia seguinte o índice da bolsa cai 6%. Aquela mesma ação cai apenas 1,66% para R$ 29,50. Nesse momento ela parece um mau negócio, embora ela fosse um bom negócio a R$ 30 ontem!
b) Hindsight Bias
Um dos maiores desafios no mercado financeiro é encontrar um estratégia sustentável a longo prazo. Isso se torna mais complicado, pois, no mercado financeiro, devido às grandes oscilações de preços e movimentos aleatórios, é muito difícil julgar se o desempenho de determinados agentes é devido à pura sorte ou ao mérito.
Hindsight é uma palavra em inglês que significa “olhar para trás”. Este viés cognitivo é a velha tendência a dizer “eu já sabia”, depois de algum fato acontecer. É a falsa sensação de achar ter previsto algo que não podia ser previsto. Olhando para trás, a memória é seletiva e, inconscientemente, escolhemos apenas aqueles fatos que justificam a previsão. Esse é um dos efeitos mais divertidos do mercado que pode ser experimentado do dia-a-dia.
Se um dia alguns de vocês tiverem a oportunidade de conversar com alguma estrela do mercado financeiro (o pessoal com QI 160), faça a velha pergunta: “Por que a bolsa tem subido/caído?”. Nove entre dez pessoas vão responder à sua pergunta mais ou menos dessa maneira: “de fato, com o nível de alavancagem dos bancos americanos nos últimos tempos, somado ao fato do petróleo estar negociando a US$ 140 o barril, o que pressiona muito o consumidor americano e o nível de dinheiro em circulação, M2, ter caído significativamente, não havia como a bolsa ter subido”. Ele só não vai te contar que estava 100% investido antes da bolsa cair.
O perigo desse viés não pode ser subestimado. Imaginem que um gestor de carteiras adquire determinada ação. Essa ação, logo em seguida, sobe absurdamente. É muito difícil justificar, no curto prazo, principalmente, as razões que levaram aquela ação a subir. O gestor, obviamente, vai olhar pra trás gritar bem alto: “eu já sabia”. O perigo começar a aparecer quando (acredito ser a maioria das vezes) acertamos e racionalizamos que aquilo ocorreu de acordo com o “previsto”, mas, na verdade, foi pura sorte. Isso vai ser um grande problema quando você estiver diante de uma situação parecida com esse último “acerto”. Inevitavelmente vai pensar: “olha, daquela vez foi assim, dessa vez é bem provável que seja, pelos motivos a, b ou c”. Imaginem que a grande parte dos agentes de mercado tomem centenas de decisões no ano. O número de vezes que isso pode acontecer e quantas decisões baseadas em falácias podem ocorrer em um ano.
c) DordeCorno Bias
Esse é um viés que não vi documentado em nenhum lugar, mas que vejo e sinto ocorrer comigo e com os outros, sempre. A dor corno é um sentimento simples. Você, com grande contribuição do Hindsight Bias, vê um acontecido e pensa: “porra, eu podia ter ganhado muito dinheiro com isso e não ganhei”. É a dor de não ter feito algum dinheiro, quando acreditamos poder ter feito.
O grande poder da dor de corno, no entanto, não aparece quando olhamos para nós mesmos, mas quando observamos o resto do mundo. É a dor de ver o vizinho fazer dinheiro e você não: isso é inadmissível, principalmente para um homem. Então, se todo mundo está tomando uma atitude completamente absurda – você tem plena consciência de tamanha estupidez –, mas há uma pequena chance do mundo inteiro ganhar muito dinheiro e você não, caso resolva não seguir os vizinhos, há uma tendência a se fazer o que não deve! A sensação é: “prefiro me fuder com todo mundo a viver o incômodo de saber que há uma remota possibilidade de me sentir um idiota vendo os outros ganharem dinheiro”.
Isso se resolve facilmente. Saiba que sempre vai haver alguém ganhando mais dinheiro que você! Sempre!
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Para outros vieses cognitivos, visitem http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_cognitive_biases
Dor de corno bias é o melhor neologismo que já saiu da sua cabeça. Pode parar de escrever esse blog, já atingiu o auge. Agora é ladeira abaixo. VOlte ao xereco.